Já a algum tempo, possuo inquietações a respeito da produção de material didático de arte para alunos do ensino fundamental, no segundo ciclo, de 5º a 9º ano. Fui em bibliotecas e livrarias de minha cidade, procurei em sites on line e nada foi achado além do livro da Graça Proença que é realizado apenas em um volume. Foram quando minhas inquietações começaram a engatinhar na busca de algo mais profundo.
O professor do munícipio, estado e do ensino privado tem acesso as novas informações
e apresentação de material didático?Como o currículo tradicional impulsiona o ensino de artes, quais poderiam ser
as novas alternativas de ensino de arte?Como promover um material didático acessível para o docente, onde ele possa se
inspirar e renovar sua prática?
No processo dessa inquietações conheci o trabalho da Professora Drª Rosa Iavelberg que como se encontra no currículo lattes (disponível em: https://uspdigital.usp.br/tycho/CurriculoLattesMostrar?codpub=D7A2A17F259D) dela "(...)tem experiência na área de Artes, com ênfase em Formação de Professores, atuando principalmente nos seguintes temas: arte, formação de professores, arte na educação, currículo de arte na educação, desenho da criança e do jovem". E tem sido desde então um ganho para meus estudos sobre a construção do currículo.
Neste post disponibilizo seu livro on line:
Para gostar de aprender arte: Sala de aula e formação de professores.
E o sumário:
Em um segundo momento, para aqueles que não conhecem o trabalho de Rosa Iavelberg trago uma entrevista de outubro de 2010, onde ela fala de "arte como instrumento para produção de significados" disponível em
http://www.blogacesso.com.br/?p=3493
São diversas as vertentes pedagógicas que pregam o ensino da arte na escola, como um instrumento para a construção da subjetividade. Como primeiro canal formal de aprendizado, a escola deve prover aos alunos recursos para o desenvolvimento intelectual, psíquico, emocional, cultural e social. Este estímulo artístico atua, justamente, para a descoberta das diversas facetas do mundo – seja interno ou externo à criança –, para a exploração de potenciais latentes e para a estruturação de significados.
Na entrevista que você lê agora, a professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo – USP e uma das autoras dosParâmetros Curriculares Nacionais – PCN na área de Artes, Rosa Iavelberg, ressalta, entre outros pontos, que o aprendizado da arte “favorece a participação social pelo viés das trocas simbólicas”. Leia a matéria na íntegra a seguir.
Acesso – Qual a importância da arte para a formação do ser humano, para sua percepção sobre o mundo?
Rosa Iavelberg – Aprender arte favorece a participação social pelo viés das trocas simbólicas. Para tanto, as formas de relação da aprendizagem em arte, nos diferentes contextos didáticos, devem implicar o aluno, mobilizá-lo e promover uma experiência com sentido para ele, que assim se reconhecerá nas práticas dos artistas e dos que participam do universo da arte. Quando aprende arte o aluno amplia suas possibilidades de compreensão do mundo na interlocução que faz com as poéticas (obras de diversos tempos e lugares), conhece-se mais e expande os modos de interação com os outros. Sabe-se que a interlocução poética é uma forma potente de compreensão das questões sociais e humanas.
Acesso – Por que o conceito de arte-educação sobrepujou a antiga nomenclatura "educação artística"? O que difere os dois termos?
R.I. – Podemos resumir respondendo que a diferença entre os termos está em consonância com concepções datadas da arte na educação escolar. A transformação refere-se, respectivamente, a proposições modernas e contemporâneas do ensino e da aprendizagem em arte. A escola ativa do começo do século 20 promoveu a livre expressão, que afetou nosso ensino de arte até os anos 80, quando nos novos paradigmas considerou-se o diálogo com a produção sócio-histórica da arte na aprendizagem.
Acesso – As escolas brasileiras estão prontas para trabalhar o conceito de arte?
R.I. – A maioria das escolas brasileiras não está pronta, mas pode ficar. Gosto de acreditar nisto.
Acesso – Como se dá a relação entre arte e cultura na escola?
R.I. – É recente a proposição curricular em arte, orientada à cultura visual, que inclui objetos de diversas mídias como conteúdos de estudo em arte na escola. Compreendo que estas orientações visam mais à transversalização de temas sociais da atualidade e seu estudo , por intermédio destas visualidades, do que ao ensino de arte. Nada tenho contra, contanto que se preserve tempo didático ao estudo da arte também. A formação cultural pode se dar mesmo fora da escola para todos, mas a formação cultivada carrega o princípio da equidade, do direito de acesso à arte e à produção cultural de qualidade artística e estética, sem hierarquizações, como direito do estudante no âmbito dos conceitos, procedimentos e valores ligados à arte.
Acesso – Qual o cenário da arte-educação no Brasil, hoje? Quem é o arte-educador brasileiro?
R.I. – Em cenário diversificado, encontramos professores que atuam nos moldes tradicionais com cópia de modelos, preenchimento de formas prontas e desenhos para colorir. Infelizmente, com referências estereotipadas e distantes do mundo da arte. Existem também professores que atuam no paradigma da livre expressão sem apresentar a produção sócio-histórica da arte e sem ensinar os procedimentos técnicos. Outro conjunto de professores acompanha as propostas contemporâneas, guiado em geral pelos PCNs do MEC, por documentos locais e, ainda, articula-se à Proposta Triangular, da Professora Ana Mae Barbosa, que associa o fazer, a leitura da arte e sua contextualização.
Acesso – Este último conjunto de professores citado consegue articular propostas pedagógicas tão diversas, convencionais e de vanguarda, com sucesso para o aprendizado da arte?
R.I. – Infelizmente, encontramos deformações em todas as escolhas dentro das três tendências pedagógicas tradicional, moderna e contemporânea, em muitas escolas. Nas diretrizes contemporâneas, por exemplo, entre outras deformações nas práticas, é constante a articulação interdisciplinar, com excesso de disciplinas por projeto na sala de aula, diminuindo e deformando os conteúdos da arte. Mas encontramos também, em número menos expressivo, o mais desejável: professores de sala de aula e arte-educadores que trabalham nas orientações contemporâneas com propriedade.
Acesso – Um professor não especializado em arte-educação pode causar danos ao processo de construção da subjetividade do aluno?
R.I. – Pode-se afirmar que um professor sem formação substantiva em arte- educação pode afetar os processos de criação artística dos alunos e a compreensão do significado da arte na sociedade e na vida dos indivíduos. A criação artística do aluno – hoje compreendida como manifestação singular do sujeito em diálogo com a produção de arte – requer espaço, tempo didático e orientação do professor para que o fazer e o compreender arte, nos quais o plano expressivo e construtivo do aluno operam em conjunto, possam ser vividos na escola. O achatamento de um percurso do fazer e saber arte decorre da má educação, que pode prejudicar a imagem que o estudante tem de si para aprender e criar.
Acesso – Como conectar crianças e jovens, que já nasceram na era das novas tecnologias, com a arte?
R.I. – As novas tecnologias também são parte do mundo da arte. Nas visitas escolares à Bienal de São Paulo deste ano, por exemplo, a maioria dos alunos carregava e usava máquinas fotográficas digitais ou celulares com câmera durante a leitura das obras.
Acesso – Que desafios o Brasil ainda tem a enfrentar para alcançar a excelência no ensino da arte-educação?
R.I. – Os desafios são os mesmos enfrentados nas demais áreas de conhecimento: promover a formação de professores; melhorar os salários da área de educação; realizar avaliação sistêmica das escolas, considerando a educação nos diferentes contextos, incluindo todos os fatores que interferem no sucesso ou no fracasso das aprendizagens.